DAR UM TEMPO




No modelo moderno de amor, vemos no decorrer do relacionamento muitas pessoas pedindo um tempo. O corre-corre diário nos encaminha por inúmeras atividades, somos tomados por diversos afazeres e não temos tempo para refletir sobre nossas relações pessoais. O “dar um tempo” é a parada para um tempo interno, é a necessidade de parar para compreender o que ocorre no intimo do indivíduo.
Na vida a dois “pedir um tempo” aparece como momento de crise salutar. Quando ouvimos a famosa frase: “vamos dar um tempo”, sentimos que há alguma coisa que precisa ser avaliada, novamente assimilada e compreendida. Ninguém que ama pede um tempo simplesmente por pedir, pede-se na tentativa de compreender melhor. As crises do relacionamento aparecem quando as divergências entre os dois começam a se tornar desconfortáveis. Este incômodo pode ir crescendo e de repente aparecer como dificuldade ou até mesmo impossibilidade de manter o relacionamento. Daí a necessidade de sair um pouco do turbilhão, aguardar que a poeira baixe, e de fora analisar todo o relacionamento.
“Dar um tempo” não é sinônimo de fim de um amor, mas de insistência de uma crise. Toda crise tem um papel purificador. Quando uma crise aparece é preciso se dedicar à crise, não fugir dela. A palavra “crise” vem de acrisolar, purificar, depurar, limpar. Crise diz a ação do crisol, isto é, a ação de limpeza do metal impuro por meio do fogo. No crisol, ouro é colocado em alta temperatura, quando está derretendo todas as impurezas vão saindo como faíscas, até que, depois de muito calor e tempo, aparece o ouro puro, de brilho inigualável. Purificação necessita de tempo e calor.
Quando aparece a crise, temos a tendência de fugir dela, de não nos permitir a purificação que o calor proporciona, pois toda purificação se apresenta como dor e, às vezes, como sofrimento. No relacionamento a dois, não tentamos entender o que se passa, mas simplesmente fugimos da crise. Uns separam, pois querendo evitar as desavenças, permanecem com as mesmas impurezas, estas gerarão em outros relacionamentos outras crises e outras rupturas. Outros buscam um conforto afetivo imediato, assim que terminam a discussão tentam reverter a situação. Não encarando as dificuldades reassumem o mesmo papel anterior. Como se ao colocar o ouro no fogo, sobreviesse o medo de perder o ouro junto com as impurezas, e este medo conduzisse a desistência da purificação. Ou seja, temos a tendência intrínseca de não encarar a crise, ou de fugir dela.
“Dar um tempo” é um convite à crise, é um convite à purificação. Daí a importância de se dedicar ao tempo proposto. O resultado da crise aparecerá como no acrisolamento do ouro, depois muito de calor e tempo aparecerá limpidamente, como o ouro puro, a compreensão do relacionamento. Para descobrir o que realmente é, entender o outro e descobrir se juntos podem construir a vida, é necessário a purificação, a dedicação somente à crise, portanto é preciso manter-se fiel a ela. E quando menos se espera aparece o relacionamento purificado, como o reluzir do ouro puro.

A VIDA VENCEU A MORTE



O centro da fé cristã está na crença da ressurreição. Cristo ressuscitou dos mortos! A ressurreição é o ponto de partida para o desenvolvimento das comunidades cristãs. É também o fato que faz com que toda a proposta de Cristo seja assimilada.
Para compreender a ressurreição é preciso entender a eucaristia. Somente quando compreendemos a eucaristia como refeição entendemos o segredo escondido na mensagem de Cristo, que foi revelado como ressurreição.
Após a ressurreição, Cristo se apresenta aos discípulos nos momentos em que eles estavam reunidos. Ou seja, é na reunião dos amigos, quando todos discutem acerca dos fatos ocorridos e, ali na unidade, repartem o pão, que Cristo se revela como ressuscitado.
Daí a importância de vivermos a eucaristia não como rito inócuo, mas como convivência na plenitude. Isto é, como refeição. Cristo não se faz somente pão, ele se faz refeição para ser compartilhada, Ele é o pão repartido, o pão feito pedaços.
Com a ritualização da eucaristia, fomos perdendo a compreensão de refeição e assumimos uma postura supersticiosa e mágica. Entretanto, não percebemos nas coisas simples a realidade eucarística. Não percebemos a eucaristia da família entorno à mesa, a eucaristia dos pobres que repartem o pão recebido como esmola. A proposta eucarística é simples. Na passagem dos discípulos de Emaús entendemos como isso ocorre. Cristo se revela na mesa, não quando come o pão (compreensão atual), mas quando reparte o pão (entendemos, assim, a importância da diaconia na Igreja Primitiva).
Entretanto, após sua morte, Cristo é reconhecido no partir do pão. É depois de sua ausência que sua presença se torna latente. Podemos experimentar este fenômeno quando perdemos um ente querido. A partir do momento em que ele se vai, sentimos constantemente sua presença, como se estivesse sempre conosco.
O ideal de Cristo, após a sua morte, começa a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A morte/ressurreição, serviu de mola propulsora para as idéias Dele. Esta presença ausente permitiu também a riqueza das diversas interpretações que foram sendo dadas ao fato de morte/ressurreição.
Cada evangelho mostra de um modo diferente este fato, mas somente João mostra as nuanças diferentes da compreensão da ressurreição. João mostra três modos de encontro com o ressuscitado. O primeiro é o de Maria Madalena, que vai até o túmulo, não entende nada e diz que roubaram o corpo do mestre. O segundo é o de Pedro, que vai até o túmulo, estuda, vê os panos dobrados e ainda não entende o que está acontecendo. Mas somente o discípulo amado vê e crê.
Assim se dá conosco hoje, alguns ao ler isto agem como Madalena, não entendem nada e partem para um julgamento. Outros como Pedro, estudam, tentam entender, mas não conseguem ver claramente. Mas somente os dotados de sabedoria, como João são capazes de realmente ver... Como dizia Jesus: “quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça!” E aqui dizemos como o anjo: “Por que procuram entre os mortos aquele que vive?”

Bento XVI – “Odres novos e vinho velho”



“Não se põe vinho velho em odres novos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam” (MT 9,17).
Admira-nos a inteligência de Cristo. há dois mil anos já mostrava o problema que existe em tentar colocar algo do passado numa cultura futura. Ou seja, não é possível impor um pensamento arcaico para uma cultura moderna. De modo contrastante vemos a pressão da Igreja em forçar um retrocesso. Agora, o Papa Bento XVI lançou a Exortação Apostólica “Sacramentum Caritatis”, onde vem reafirmar o retrocesso do catolicismo. Tememos que todos os esforços do Concílio Vaticano II tenham sido em vão. Pois o “aggiornamento” proposto na época, com tentativa de oferecer “vinho novo para os odres novos”, faz um caminho de fechamento e retorno, corremos o risco de perder os odres e o vinho.
Além da “Sacramentum Caritatis” falar que o segundo casamento é uma “praga/chaga”, ela propõe o retorno da utilização do latim nas liturgias. Ou seja, a Igreja deu um grande passo à frente e agora, a cada novo dia, dá dois para trás. No documento anterior, o “Deus Caritas est”, o Papa já falou sobre o amor, teceu vários comentários sobre as várias formas de amar, mas também mostrou sua força conservadora quando se pronunciou sobre a atividade social desenvolvida pelos cristãos: “eles não se devem inspirar nas ideologias do melhoramento do mundo”. Isto é, para ele a ação social cristã não tem compromisso com o progresso da vida social, mas com a manutenção das classes pelo assistencialismo paternalista.
A igreja precisa ouvir seu fundador: “Vinho novo para odres novos”! Ela está fazendo uma opção clara pela manutenção dogmática de um poder moralizante que busca a reconstrução das instituições. Com este documento a igreja pretende reafirmar seu poderio moral, mesmo que para seus poucos fieis remanescentes.
O segundo casamento foi o ponto do “Sacramentum Caritatis” mais debatido na mídia. A questão do divórcio ainda é discutida pela Igreja Romana como tabu, mesmo sendo uma prática aceita durante antiguidade cristã e mantida até hoje pela ortodoxia católica.
Nos chama a atenção que esta postura gera um acelerado retrocesso. A grande proposta de uma igreja no mundo e para o mundo, defendida pelo Vaticano II, perde sua força. Entra em cena a proposta de uma igreja institucional e conservadora, girando sobre seu próprio eixo, não em função do mundo, mas de si.
Nesta postura, nos entristeceu o caso do teólogo Jon Sobrinho. Mais um grande pensador latino-americano caçado. O interessante é que ele foi caçado por ser criativo e renovador, por tentar “colocar vinho novo em odres novos”. Jon foi condenado por apresentar a humanidade de Cristo. o fato é que este teólogo não caiu em heresia, conseguiu fugir do docetismo (que defende Cristo como somente Deus) sem cair numa compreensão cristológica material. Conseguiu sim mostrar o Cristo encarnado, simples, pobre e maltrapilho, ou seja, um Cristo com o rosto Latino-americano.
De certo modo, a arcaica Roma Eterna não conseguiu perceber a “divindade na humanidade”, ela precisa ouvir seu fundador e aprender a colocar o “vinho novo em odres novos”. Pois só assim poderá reconhecer a ação dele nos meandros da história da humanidade.

A VIOLÊNCIA



Existe no humano resquícios de violência. Somos constantemente violentos em nossas ações e reações. O que é uma marca da animalidade, se apresenta em nós como reação humana. A violência é uma obra da irracionalidade, seja para conseguir o que se quer ou para manter uma determinada ordem.
Nas duas situações a violência aponta para um modelo humano precário e vazio. Violência tem a ver com violação. Quando alguém é acometido pela violência percebe-se violado em sua humanidade. Por todos os lados percebemos as atitudes de violência seja na família, no trabalho ou na vida macro-social.
É comum na família tradicional o uso da animalidade para a educação dos filhos. A isso chamam de formação e educação, mas que irromperá como deformação do humano, gerando um outro ser violento. Da mesma forma que “gentileza gera gentileza”, “a violência gera violência”. Esta violência gera o medo e isto mantém tudo como queremos. Entretanto, formamos um humano violento incorrendo num ciclo repetitivo para o futuro.
No trabalho a violência aparece como competição. Quem não experimentou uma chefia incompetente. Aquele modelo de chefe que não sabe o que faz, mas que sabe muito bem manter uma ordem por meio de intervenções. Este tipo de chefia tem atitudes egóicas e vaidosas, este se mantém no poder por mecanismos ocultos ou pela manipulação salarial.
A violência mais visível e em crescente desenvolvimento chamamos de violência macro-social. Não são poucas as notícias de ações e reações de violência. Em todos os tempos a violência foi usada para a manutenção ou o domínio do poder. Na antiguidade tínhamos as guerras de expansão, recordamos o Império Romano. Na Idade Média o Tribunal da Santa Inquisição mantinha a organização vigente. Hoje, vivemos duas violências. A violência diária, decorrente das necessidades sociais (o que sempre existiu – lembramos a lenda de Robin Hood), onde aqueles que por algum motivo não possuíam algo retiravam violentamente de quem possuía. Esta violência diária acontece de modo local e bem situado, aparece no dia-a-dia. A outra violência, que incorre e suscita maiores preocupações é a violenta paz armada. Paises se armando e se preparando para uma guerra que tem em vistas a proteção de suas riquezas. As armas de uns geram medo nos outros, lançando ambos a uma falsa paz. Trata-se de uma violência de grande expressão, trata-se de uma macro-violência.Agora, o que devemos esperar de um mundo violento? Estamos num momento de passagem, onde o planeta já não suporta mais a existência humana. A sobrevivência da humanidade depende unicamente do modo com que o planeta for cuidado a partir de agora. Se nos relacionarmos com a terra na mesma relação de violência que temos uns com os outros, certamente seremos varridos deste local. A violência é utilizada pelos animais para garantir a sobrevivência. Da mesma forma o planeta utilizara dela pra garantir sua continuidade.

Hipocrisia



Nestes dias ouvimos na mídia várias vezes a palavra hipocrisia, mas não nos atinamos ao sentido real desta palavra. Se dermos uma olhadela nos termos gregos, nos depararemos com dois princípios que se unem e formam em português o que ora chamamos de hipocrisia. A primeira vista temos o termo “hipo” que significa abaixo de, em nossa língua dúzias de palavras têm este radical. Lembramos aqui a hipo-termia (temperatura abaixo do normal). O outro radical nos chama mais a atenção e é o “crisis”, que em português originou a palavra crise, mas que no grego está ligado à purificação, julgamento, acrisolamento.
O hipócrita é aquele que se coloca abaixo de qualquer julgamento. Como se ele estivesse fora daquilo que ele defende. Isto é, o hipócrita defende um sistema, mas não vive de acordo com o sistema que prega e defende. Hipocrisia é fechar os olhos para não ver, sabendo que a coisa está aí.
Quando, durante seu discurso sobre HIV/Aids, Lula falou sobre o preservativo, chamou a atenção para a hipocrisia que envolve o assunto em todos os setores que defendem os tabus da sexualidade, de modo especial a família tradicional e a Igreja.
A hipocrisia está acentada no seio de toda instituição. Pois, por questão de sobrevivência, o institucionalizado tem divergências nas aplicações de seus conceitos. De um modo mais plástico, há uma distância abissal entre a teoria e a prática, entre a proposta e a vida, entre o ideal e o real. Ou seja, somos hipócritas na medida em que dizemos uma coisa e fazemos outra.
Neste grande contexto, os não hipócritas se congregam em dois grupos, ou são a classe não-existente que é capaz de nunca se entregar a seus instintos mais básicos, ou, um grupo real, que não se deixa guiar ou não quer viver regido pelos valores de moral ou da virtude. Então, não hipócritas se dividem em dois grupos, um grupo inexistente e outro considerado “baixo”, mas que aqui consideramos autêntico.
A classe mais nobre da sociedade é constituída por hipócritas, pois é a classe que mantém hipocritamente a ordem e faz com que a sociedade tenha uma direção, mesmo que falsa, "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. O homem sociável é por natureza um ser hipócrita. O homem não hipócrita está relegado à exclusão ou à morte social, por destoar do modelo pré-padronizado que mantém a ordem social. Ser hipócrita é, de certo modo, se manter bem onde se está, garantindo a estabilidade conveniente à existência no mundo. A não hipocrisia consiste em se libertar dos elementos de moral que dominam a vida cotidiana, portanto se colocar num mundo paralelo, criando uma outra realidade, regida por leis diferentes as adequadas àquele padrão.

ONG’S A SERVIÇO SISTEMA


Nos últimos anos, observamos o surgimento e expansão de diversas ong’s, grande parte com um objetivo claro: “lutar por direitos”. Surgiu ong para tudo, desde o cuidado com a preservação do meio ambiente até a defesa da cidadania. Um vasto espectro de organizações assumiu o quadro mundial.
Elas apareceram com ideal de organizar a sociedade civil. Estas organizações vinham para garantir os mínimos básicos, em muitos casos vinham para suprir as demandas sociais, responsabilidade do estado. Para ajudar auxiliar o estado, estas instituições começaram a receber benefícios como isenção de impostos, dinheiro público e a possibilidade de receber doações de pessoas e empresas, desde que todo o montante fosse investido no objetivo de existência da instituição.
Isto proporcionou crescimento das ong’s e o aparecimento do terceiro setor. Entretanto, neste contexto, moldado pelo neoliberalismo o estado passou a se omitir das demandas sociais, oferecendo ao terceiro setor a atenção com os carentes. As empresas passam a ser beneficiadas pela existência do terceiro setor, pois em nome das demandas sociais podem fazer doações às ong’s e receber do estado a isenção tributária.
Mas não bastava a isenção de impostos, as empresas queriam mais. Além de ter benefícios fiscais elas queriam impregnar sua marca, gerar mídia espontânea e receber gratuitamente espaço nobre em jornais e na televisão. Então, uniram a demanda social ao investimento de capital privado (na verdade dinheiro público, pois se trata de valor que deveria ter sido empenhando no pagamento dos impostos).
As grandes empresas, no ensejo de gastar menos e obter mais espaço na mídia, lançam seus institutos próprios, muitas vezes com o mesmo nome e logo-marca semelhante. Depois, estes institutos começam um trabalho doentio e até maluco para criar os chamados projetos sociais. Muitos até interessantes, mas alguns se formam como “Frankensteins”, pois partem de uma idéia interessante, mas como não são frutos de uma demanda local, e em alguns casos são aplicados de modo despótico nas comunidades, dificilmente se mantém ou geram bons frutos.
A responsabilidade social se apresenta como uma febre capitalista. Muito dinheiro investido, muito trabalho árduo e pouquíssimo resultado real. São os mecanismos que o neoliberalismo descobriu para manter a estagnação social. A sociedade se apresenta com um primeiro setor fraco e vulnerável, o governo, diante de um segundo setor em constante crescimento que detém o domínio do terceiro setor e faz dele seu espaço de expansão social.
Este modelo criou ong’s a serviço do neoliberalismo. Que com muita facilidade, e na busca de captar financiadores, mudam a razão de sua existência, favorecendo a manutenção das grandes empresas e garantindo a estagnação social.

O individualismo e a crise humana

Vivemos o auge da era do indivíduo. Para onde olhamos vemos a queda dos ideais de coletividade. Desde a instituição familiar até as mais ideológicas linhas de pensamento coletivo perderam sua dinâmica interna. As instituições se percebem numa crise interna, esta crise está intimamente ligada ao novo modelo humano que passou a imperar, o humano individualista.
Quando falamos em individuo nos remetemos ao latim, onde se diz “individuu”, que significa aquele é único e indivisível. Ou seja, o indivíduo é algo que é por si e único. Não pode ser cindido nem separado. Na seqüência vemos o surgimento dos termos “individualidade”, que se remete ao modo de ser do individuo, e “individualismo”, que se refere à doutrina, corrente, filosofia, ou seja, uma doutrina do individual. Se fizermos uma analogia com outro termo, por exemplo “cristianismo”, notamos de um lado o “Cristo”, naquilo que ele foi, e de outro lado o “cristianismo”, o modo com que vivem e se relacionam os que crêem em Cristo, percebemos claramente que um nada tem a ver com o outro. O “ismo” se refere à decadência (saída da cadência originária) de um elemento auto-suficiente e forte por si. Daí que a individualidade é valorosa e importante, mas o individualismo se apresenta como fator de permanente atenção, pois pode aparecer de várias formas, criando processos estranhos e perigosos a existência humana.
A individualidade é uma das mais fortes marcas do humano. É ele, enquanto indivíduo, que age no mundo. Contudo, a vida acontece na coletividade, somos um “nó de relações”. Mas, hoje vemos acentuar-se a valorização do individuo, neste processo cada um coloca seus interesses acima de qualquer coisa. Ou seja, a autoridade do individuo está acima de qualquer definição apresentada anteriormente. Os valores universais não estão definidos e claros, pois cada um faz uma leitura do mundo a partir de valores individuais, que nem sempre são consensos humanos.
Todo este movimento pode ser presenciado publicamente na política, onde cada indivíduo busca o melhor para si, defendendo somente interesses particulares. De certo modo o entendimento de “pólis” é novo, pois não se enquadra no ideal de bem comum, mas de adequação ao individual. Assim, as estruturas políticas surgem para servir alguns indivíduos, em suas necessidades especificas, não se atendo às necessidades reais da coletividade.
O que chamamos de corrupção nada mais é do que a cristalização do individualismo na política. O corrupto se coloca acima de qualquer coisa, ele é o único individuo que deve ser beneficiado. Ou seja, nada existe além dele. Neste modo de pensar, onde o individuo é o centro, a punição se torna inútil, pois não age como regeneradora, mas vem motivar novas ações na mesma intensidade.
Vivemos uma crise universal de valores coletivos. “Tudo que era sólido, está desvanecendo no ar” . A humanidade urge por novos valores, por um novo ethos, onde aja um consenso mínimo que garanta a sobrevivência da espécie.

Equilíbrio familiar



Às vezes, paramos para observar os tipos humanos. Não são muitos, mas todos partem de dois princípios básicos, que os orientais chamavam de Yin-Yang. A essência existencial se dá neste processo dual, onde uma única realidade se apresenta de modos diferentes, num colorido autêntico. O equilíbrio está na perfeita vazão destas forças, onde elas não se anulam, mas são plenificadas pela complementaridade.
Assim, o mesmo se apresenta ora como passividade, ora como atividade, não existindo diferença de valor (Bom / Mau) entre eles, mas na união dos dois irrompe a força vital. Na milenar estrutura da família, a mesma dinâmica aparece, nela o pai representa o vigor e a mãe a ternura. Quando existe o perfeito equilíbrio entre ternura e vigor, onde cada um corresponde ao valor que tem, a família se encontra psiquicamente saudável.
No mundo agitado em que vivemos, lentamente estes papeis estão se perdendo. A mãe, que antes trazia o arquétipo da ternura, começa a sobressair como vigor, assumindo os papeis de força e virilidade. O profissionalismo feminino toma o espaço antes destinado à família. Neste processo, a mulher tende a esquecer da ternura e se dispõe a competir com o vigor. Vemos um processo de masculinização do princípio feminino.
O homem, por sua vez, se vê deslocado em seu vigor ficando escondido e velado. Irrompe de outro lado a super-mãe que anseia por um lugar no mercado de trabalho, mas que não pode esquecer do cuidado com os filhos. Este novo movimento está gerando um stress estonteante. A estrutura psíquica, que se mantinha num modo ordenado há milênios, foi fragmentada. Sem juízo de valor, percebemos uma nova dinâmica, onde as famílias se encontram desestruturadas e sem clareza de sua função no mundo.
A crise instaurada por este novo sistema está se refletindo nos filhos. Enquanto os progenitores estão perdidos em seus papeis, os filhos vão nascendo e crescendo sem a clareza necessária para o equilíbrio psíquico. Vemos, por todos os lados, surgir inúmeras doenças psíquicas, muitas, senão a maioria delas, têm sua origem nos primeiros anos de vida. Estas doenças surgem do modo com que os pais se relacionam como família.
Os dois princípios que constituem o universo, Yin-Yang, se bem integrados mantém a harmonia. Assim, como na constituição da família, se a ternura feminina e o vigor masculino estiverem relacionados e forem movidos e direcionados por um amor verdadeiro, perceberemos nela a harmonia que garante a saúde da psique. Assim, já nos ensinavam os gregos: “Na união dos opostos está a mais perfeita harmonia”.

A Irracionalidade da Razão



Em nosso modelo capitalista estamos experimentando o desenvolvimento destrutivista. Em nome do crescimento, da expansão e da atração de capital em vistas do enriquecimento, observamos a destruição do conjunto ambiental, em conseqüência disto a destruição do espaço propício para a vida humana.
Em pouco tempo teremos um planeta superaquecido, imensas regiões desérticas e a inevitável extinção de nossa raça. Isso tudo em nome do desenvolvimento.
Até o final da Idade Média, considerada pela ignorância racional como idade das trevas, tínhamos o ser humano vivendo em perfeita harmonia com seu planeta. Esta harmonia tinha como base a compreensão da divindade como centro de tudo, de onde tudo provém e para onde tudo retorna. Nisto, o homem conhecia seu lugar no mundo e cada elemento era considerado como criatura de Deus, ou seja, todos filhos de um mesmo pai. Alguns eram mais claros e objetivos ao chamar cada elemento que compõe a natureza de irmão, constituindo uma fraternidade universal.
Dentro da grande fraternidade, onde um só era o senhor, uma harmonia típica se dava. Não se tratava de um mundo perfeito, sem problemas e dificuldades, mas sim de um mundo onde a existência se garantia pela pacífica convivência com o natural.
Com o iluminismo fomos visitados pelas luzes da razão, a fé do modelo medieval foi colocada em cheque e desqualificada. Desde aquele momento, o homem se tornou o centro do universo e a divindade passou a ser vista por um outro prisma, o divino foi colocado à disposição do homem.
Após a substituição da fé pela razão, irrompeu a necessidade de dominar, o homem se tornou o senhor de tudo, ocupando o lugar do criador e colocando tudo a sua disposição.
Neste processo o homem é o senhor de tudo e presume controlar todas as coisas. Esta presunção provém da arte científica racional que tudo quer conhecer e tudo quer controlar. Somos guiados por uma ciência que para conhecer um determinado ser precisa destruí-lo, fragmenta-lo e dividi-lo. Portanto, não se trata de uma ciência de vida, mas de morte. Pois para estudar um determinado elemento precisa retira-lo de seu habitat e criar condições artificiais, entretanto a vida em plenitude não se dá no artificial.
O que não percebemos é que esta força não está garantindo nossa sobrevivência. A única coisa que pode manter o equilíbrio da terra, que pode garantir a sobrevivência do homem sobre terra é o retorno ao frugal, ao simples e à compreensão de submissão aos princípios naturais. Onde não estamos acima de tudo, mas somos simplesmente uma parte do todo.

Pensamento Autônomo

Muitas correntes pedagógicas se propõem a educar para a autonomia. Contudo, poucas conseguem fazer a des-coisificação do educando. A modernidade, em seu processo de materialização, cindiu o ser humano em diversos aspectos e transformou-o em coisas. Na escola percebemos como o aluno foi coisificado (tornou-se material). Portanto, nessa compreensão, existem em sala de aula duas coisas que interagem, um aluno-coisa que aprende e um professor-coisa que ensina.
O professor, nesse processo, deixou de exercer seu papel de educador. Educação do latim “educatio” que significa "formação do espírito e instrução", que deriva-se do verbo “educare” e tem sentido de "retirar para fora, criar, nutrir, conduzir, levar". O professor se tornou um cumpridor, reprodutor de um conhecimento solidificado.
Deste modo, a escola formal não consegue ver no professor um mestre, pois o mestre é aquele que retira daquilo que já está no discípulo, conduzindo-o ao pensamento autônomo. Platão dizia que todos já conhecem o que realmente é importante para a vida, basta recordar, a esta recordação dava o nome de “anamnese”.
A autonomia requer liberdade. Na educação moderna, ela pode surgir a partir do modelo da liberdade assistida, um momento de livre gozo da reflexão. É importante para o aluno conhecer os milhares de conteúdos, contudo é primaz saber pensar sobre estes conteúdos, tendo a possibilidade de indagar e ser indagado, de duvidar, de reconhecer e de experimentar e até de negar.
Alguns professores vêem sua profissão em crise, com a ascensão da informática, com o acúmulo de dados e informações, tudo aquilo que ele sabia e ensinava pode ser acessado pelo aluno a qualquer momento e em qualquer lugar, a informática começa a competir com o método educacional hodierno. Por isso, o modelo formal de professor está realmente em “Xeque”. O acúmulo de dados, a modo de cursinho pré-vestibular, passa a ser visto como necessidade momentânea, pois a aprendizagem tem um único objetivo, que não a vida do sujeito.
Nesta coisificação, tudo é compreendido na dinâmica mecanicista, onde uma peça pode ser substituída por outra. Assim, na educação, podemos substituir o professor por um outro repassador de conteúdos, como o computador. A máquina, além de não se cansar é interativa e divertida.
Contudo, este processo atual não permite a abertura para a criatividade. Ao aluno cabe a reprodução de tudo que lhe é apresentado, o melhor aluno não é aquele capaz de criar, mas o capaz de reproduzir. A educação em si é a formação para a autonomia. Quando falamos em formação não queremos nos remeter ao sentido de fôrma, a modo de formal onde todos devem cumprir um mesmo papel, como a “Cama de Procusto”, mas sim forma no sentido de dar forma, como autoforma, onde o oleiro dá a melhor forma à argila e cada peça ali é única.

Meditação

Durante o dia-a-dia nos deparamos com muitos afazeres, passamos a vida no alvoroço de cumprir muitas tarefas. Vivemos no mundo do ativismo, onde o “produzir” está no centro da vida. A frenesi pela conquista faz com que convivamos cada vez mais com a competição e o estress, pois tempo é algo precioso e deve ser empenhado nesta batalha. Para que tanta correria, se isso não acrescenta um dia sequer em nossa vida?
O homem, nessa lúgubre tarefa do ativismo, afasta-se de sua essência, deixa de ser o agente da vida e se torna um mero cumpridor. Na situação em que vivemos nós não agimos mais, somente re-agimos a tudo.
Neste imenso mar de re-ações somos chamados a parar. A meditação é um momento propício para simplesmente pararmos e deixarmos que nossos sentidos sintam, voltando-nos à nossa essência.
Entretanto, a meditação tornou-se mais um produto para o mundo do ativo capitalismo. Em qualquer banca de jornal podemos encontrar inúmeros manuais de meditação, com seu devido roteiro audiovisual. Percebemos, então, que a suposta meditação também se tornou um produto, que deve ser vendido e comprado.
Contudo, para meditar é necessário uma aproximação muito grande com a terra, é preciso parar e respirar como a terra respira, agir de modo lento como a terra age, e deixar a vida brotar, como a terra deixa. Saber calar é o primeiro passo para a meditação. É preciso calar o coração, deixando de lado primeiro o julgamento.
Existem pessoas que, além de estar no frenesi das muitas coisas, vivem a vida dos outros. Alguns instintivamente declaram-se melhores, passam então a vigiar e julgar, nisso esquecem de viver a própria vida.
Para a meditação é preciso calar o julgamento e perceber-se só. Quem medita não pode temer a solidão pois, assim como morrer, a meditação acontece na mais profunda ausência de pessoas. Da mesma forma que ninguém é capaz de acompanhar alguém na morte, é impossível meditar pelo outro. Saber estar só é determinante para a meditação, pois quem tem a capacidade de viver na solidão saberá compreender o outro e assim viver em comunidade.
Meditar é algo em si. Monja Coen ensina que “meditar é um verbo intransitivo”. Ou seja, não meditamos sobre isso ou aquilo, simplesmente meditamos. A meditação surge como parada, numa ausência total de re-ações. Ali na meditação conseguimos agir, aprendemos a cuidar de nosso corpo por meio da observação. Nos colocamos à disposição de nossos sentidos e passamos a observa-los. Desta observação chegamos ao conhecimento.
Lentamente vamos entrando num mundo de silêncio, onde a turba mental cede espaço e a vida passa a se dar num colorido diferente. Deixamos de re-agir e passamos a inter-agir com o mundo. Ao aproximar-nos da terra começamos a perceber que somos parte do todo.

A Intimidade na Mídia

Com o avanço da pós-modernidade iniciamos um confuso processo de abandono da intimidade. Neste processo a intimidade foi banalizada e está se tornando um rentável mercado através da mídia.
São inúmeros os programas televisivos em que os protagonistas estão expondo completamente sua vida particular. Nos Reality Shows os atores vivem publicamente a intimidade, mostrando abertamente seus sonhos e vontades mais secretas. A divulgação da intimidade passou a ser encarada como possibilidade de lucro, quanto mais exposto estiver, mais famoso será. Os indivíduos de destaque conhecem bem o que é não poder gozar da intimidade. Porém, a cada dia os cidadãos comuns desejam e insistem em entrar nesta dinâmica auto-expositiva. Podemos ver claramente isso nos sites de relacionamento, onde muitos se expõe completamente, como no ORKUT.
A demasiada exposição faz como que percamos a consciência de que somos seres dotados de segredos e somos valorosos por aquilo que guardamos no mias secreto de nosso coração, nossos sonhos e ideais. Quando nos descobrimos desprovidos de intimidade, detectamos a falta do que nos é essencial. Entretanto, vida real acontece no silêncio da intimidade, no aconchego carinhoso do abraço afetivo, onde impera a subjetividade do individuo consciente de si.
Existem diversos prazeres que se dão em público, sejam os aplausos de reconhecimento pelo trabalho bem-sucedido ou a festa surpresa de aniversário. Contudo, podem ser prazeres momentâneos e vazios, pois dependem do reconhecimento de outras pessoas. São prazeres passageiros se os aplausos ou a festa não estiverem envolvendo pessoas especiais. O homem midiático (dependente da mídia) sustenta a idéia de que a satisfação e a felicidade têm a ver com a imagem projetada ao público. Depois de gerada a imagem, a mídia exige que ela seja mantida e defendida. Muitos famosos perdem seu sossego na tentativa de fazer jus à imagem, mascaram seus atos e tentam esconder-se. Alguns são tão assediados que não conseguem sequer ir ao mercado. Com tempo, após anos de sucesso, se encontram sozinhos rodeados de pessoas.
Então percebem que a vida se foi, que os prazeres públicos sufocaram a alegria das coisas simples, que casa encontra-se vazia, que não há amigos verdadeiros, que perderam horas cercados de curiosos, de paparazos, em meio a tantas entrevistas que não tiveram tempo para amar. Passaram os anos entre um casamento e outro, entre um drink e uma aparição na televisão, mas não viveram a intensidade. A mídia lhes roubou seu segredo, a intimidade se perdeu e tudo se tornou um grande jogo de faz de contas, onde a pompa das festas e roupas caras tomou o lugar da vida simples e dos encontros de família.
“A vida ensina que a felicidade jorra da intimidade. Não há outra fonte. Pode haver prazer na apropriação, alegria no encontro, júbilo numa boa surpresa. Porém, felicidade, como profundo deleite do espírito, só na intimidade amorosa, na oração sem imagens e palavras, na contemplação do belo, no acolhimento do ser querido, na entrega ao mistério, na eternização subjetiva de um momento, na poesia de um toque, um gesto, uma palavra que traz em si plenitude”. (Frei Betto)

Com quem eles falam? (Questão Natalina)


Como bom cristão (mesmo sendo um péssimo católico), assisti a Missa do Galo, transmitida pela Rede Globo de Televisão. Diante de toda aquela imponência, aquela beleza teatral, onde um papa, pouco carismático, cercado de cardeais em vestes vermelhas cumpria oficiosamente o rito da Vigília de Natal.

Tudo conforme o esperado até o momento da homilia. Naquele instante específico tive um “insight” , que se me apresentou como pergunta: “Com quem eles falam?”. Comecei em minha mente a rastrear os povos, as classes sociais e as culturas, depois recordei o Evangelho. Ao recordar a narração evangélica senti a distância do discurso papal e a vida prática dos povos.

Até onde sabia, a Criança Divina nasceu num estábulo. Envolto em paninhos foi colocado numa manjedoura. Aquele menino veio de modo pobre para os pobres, revelando aos pequenos o que ficaria sempre oculto aos grandes. Nasceu na miséria e miseravelmente viveu. Em sua vida, uma mensagem de paz plantou. Entretanto, sua mensagem não foi ouvida.

De repente sua mensagem é pregada de modo imponente, de cima de um trono, por homens vestidos de modo esplendoroso. Mas aquela criança não teria vindo para os pobres? Não era Jesus, o filho do carpinteiro? A velha pergunta ficou latente durante toda a homilia. “Com quem eles falam?” Não podemos maldizer a linda catequese que o papa proferiu. Contudo, não vi a concretização da mensagem da Criança Divina. Não havia pobres na celebração, os amigos íntimos do homenageado não foram convidados.

Fiquei assustado ao ver que representantes de diversos continentes estavam lá, que houve leituras em várias línguas européias, mas que ninguém sequer mencionou a pobre e sofrida África. Os Europeus se satisfazem com a rica e poderosa Romana Igreja, com lindos ritos mecânicos, que pouco dizem às outras culturas, como a africana.
Aquele Cristo da linda mensagem papal carrega os traços da cultura que se considera evoluída. Onde a pobreza é somente um adorno emotivo. Lá, comovidos com o presépio em gesso, todos cantavam a alegria da mesa natalina, onde a fartura impera. Mas e o cristo pobre? Ah, este ainda vive entre a pobreza. E ele recebeu um brinquedo velho, uma doação para que seu natal fosse um pouquinho melhor, uma peça de roupa usada. Ou seja, recebeu das sobras. E ainda não participou daquela apoteótica celebração.
Após a Missa do Galo não consegui responder a minha indagação. Não descobri qual era o destinatário daquela linda mensagem. Infelizmente ficou claro quem não recebeu a mensagem, eu mesmo acho que não a recebi. Espero encontra-la na simplicidade das poucas coisas e na pureza dos pobres, pois deles é o reino; na dor dos aflitos, pois serão consolados; entre os mansos, pois herdarão a terra; no gesto dos misericordiosos, pois encontrarão misericórdia; com os puros de coração, pois estes verão a Deus.

Quem tem o controle?

A infelicidade humana está associada a dois agentes principais: o medo e a ansiedade. Estes elementos convivem conosco criando mecanismos de defesa e destruição. Ou seja, eles são essenciais a nossa sobrevivência, mas também são causadores da infelicidade.
O medo gera a ansiedade e a ansiedade gera o medo. Medo e ansiedade formam um conjunto cíclico, onde um gera e propaga o outro. Quantas pessoas sofrem diariamente com o medo de perder o que amam. Estão mais preocupados em defender o que presumem possuir do que usufruir daquilo que lhes é ofertado.
A sensação de perda gera a ansiedade e a necessidade de defesa. Quanto mais tentamos defender o que temos, mais distantes estamos de nossa felicidade. Pois, deixamos de viver em função de nós e passamos a viver em função de nossas posses, sejam materiais ou afetivas.
Somente quando possuímos a liberdade diante das posses e as utilizamos com a consciência de que tudo que temos nos é dado como concessão, percebemos que o medo é em vão.
Temos medo o futuro. O que pode acontecer? Como será? Estamos constantemente tentando nos esquivar das dificuldades que virão. O medo da morte está em cada um gerando a imensa ansiedade.
Para vencer o medo é preciso encarar a realidade, tal como ela é. É preciso saber que o controle do universo não pertence ao homem. Os pais criam os filhos sonhando com um ideal, imaginam que serão pessoas e destaque, mas com o passar do tempo, os filhos seguem outro caminho. O agricultor estende suas plantações a fim de colher mais, depois de todo o trabalho o granizo vem acaba com sua produção. O investidor coloca seu dinheiro em fundos para render mais, de um momento para o outro o mercado muda e todo o dinheiro perde o valor. Logo de assalto vem a pergunta: “O que fazer?” ou “Onde foi que erramos?”.
Quando não sabemos o que fazer, não devemos insistir, cabe a nós aguardar. Quanto ao erro, erramos quando acreditamos que as coisas são lógicas e acontecem numa seqüência prática de fatos, numa articulação única e metódica de “se isto, então aquilo”. Todos os medos e ansiedades surgem a partir de nosso método estático de pensamento, pois sempre esperamos que os fatos ocorram na seqüência da lógica, porém sempre que algo tende a fugir do esperado iniciamos nosso processo de medo. Vemos a necessidade de aprender a esperar sem esperar. Quando nossa consciência se abre para este modo de pensar, conseguimos perceber a vida de diversos modos, sem a lógica pragmática, descobrimos quão suave e bom é viver.

Poder pelo poder




Existe em nós a ilusão do poder. Esta imaginação faz com que percamos muito tempo criando mecanismos e articulações para conseguirmos nossos objetivos. Imaginamos que após criarmos uma grande rede de relacionamentos, com inúmeras pessoas subordinadas a nós, teremos a felicidade.
Esta ilusão faz-nos perder anos tentando eliminar nossos inimigos. Mas o único poder que temos está na simplicidade das coisas que fazemos. Quando nos colocamos na luta pelo poder não conseguimos perceber as pessoas que nos cercam, passamos a tratar cada uma como degrau ou como empecilho.
A luta pelo poder cria e desata laços como se formam e desvanecem as espumas de sal na beira da praia. Aqueles que são amigos se tornam inimigos mortais em alguns minutos. O mais odiado adversário aconchega-se no quintal do mais poderoso. Brigar pelo poder é o movente dos homens fracos.
Ficamos impressionados com aqueles que alcançam altos títulos. Os mais fracos realmente necessitam de altos títulos para serem amados ou para serem percebidos. Não suportam os simples, pois estes além de incomodar pelo silêncio são capazes de coisas maiores.
Aqueles que brigam pelo poder se deparam cedo ou tarde com o isolamento, são respeitados e ovacionados, publicamente todos os louvam, mas intimamente são odiados. São odiados pelo modo com que se relacionam. A sede por possuir afasta os amigos verdadeiros e cria relações circunstanciais. São respeitados por serem temidos.
Porém, quem não busca o poder, o alcança sem perceber. Torna-se mais poderoso que um grande rei, pois sua grandeza está no amor. Quem ama é amado. O poder de quem ama provém de seu modo simples de agir e ser. Este não é temido, mas amado. Quando alguém é amado tem o domínio sobre o inaudito, é capaz de arrastar uma multidão pelo simples exemplo dado. Conhecemos Mahatma Ghandi, Tereza de Calcutá, Martin Luther King e tantas grandes personalidades que deram uma motivação ao mundo por seu exemplo.
O poderoso usa de sua força, de sua oratória, de seus artifícios. Porém o poderoso fica preso a seus subordinados. Quem nunca ouviu falar de um administrador que não pode mexer naquele subordinado incompetente porque ele sabe muito? Todo poder é volúvel, pois está suspenso em pilastras de vidro. A qualquer momento tudo pode vir ao chão.
No caminho esotérico temos a consciência destas escolhas. Aprendemos que o poder vale muito pouco e que seremos amados pelos amigos não pelo que possuímos, mas pelo modo com que oferecemos nossas vidas.

Desapego



Ouvi uma pessoa dizendo: “Você é louco por pensar desta forma!” De imediato surgiu uma resposta em meu coração: “A graciosidade da vida só é concedida aos loucos!”
Tudo que temos é mera concessão, nada nos pertence e de nada somos donos. Até mesmo a graciosidade da vida é concessão. Às vezes, imaginamos que possuímos ou que temos poder sobre algo, ou ainda que somos dotados de uma força controladora. Contudo, isso não passa de ilusão, de vaidade (do latim “vanitas”, que significa um punhado de vento), pois o universo se oferece a nós como algo concedido.
Se nada nos pertence, por que agimos como senhores de tudo? Como se fôssemos mais ou maiores? Quando iniciamos um processo de acúmulo, onde guardamos mais e mais, pelo simples fato de guardar, estamos nos fazendo proprietários de algo que não é nosso.
Como toda concessão, precisamos cuidar muito bem daquilo que recebemos. De maneira que quando formos devolve-la ao dono verdadeiro, o concedido esteja em perfeitas condições. Quem não conhece o Evangelho dos talentos? Onde cada um ganhou um pouco, alguns utilizaram o que receberam e fizeram multiplicar, mas um deles guardou, numa postura acumulativa, e voltou para devolver o que havia recebido. Aquele que guardou para si foi condenado.
O desapego consiste em “reconhecer as mãos de quem nos criou”. Isto é, dar o que é de direito de cada um. Na tradição religiosa tudo é concedido com a finalidade de multiplicar, de dar a todos e de partilhar, de maneira que todos participam da mesma mesa e dos mesmos dons.
Quando os monges carregavam algum livro, logo na sua contra-capa vinha a inscrição: “Para o uso simples de ...”. Aquele livro tratava-se somente de um instrumento, que não tinha um dono, mas simples usuários. Nesta tradição, nunca se oferece daquilo que está sobrando, como fazem os que acumulam, mas daquilo que se tem. A atitude de dar das sobras mostra que o acúmulo está acima do ser humano. Ou seja, na compreensão daquele que se apega é mais importante guardar que partilhar.
Por que motivo o apegado se dedica ao acúmulo? Simplesmente para satisfazer sua ilusão de segurança. Ele crê firmemente que a prosperidade reside em recolher e em ajuntar mais e mais. Este acúmulo gera a desigualdade, a fome e a miséria. No caminho esotérico, o desapego é fundamental. É preciso saber que somente aquele que consegue suspender as vaidades, os desejos e as vontades, é capaz de fazer um caminho reto. Portanto é preciso ter liberdade para ser, sem apegos e necessidades, é preciso ter a capacidade de abandonar tudo que pode gerar o apego. “Aquele que não for capaz de abandonar sua casa, pai, mãe e irmãos por causa do reino, não é digno de mim" (MT 10,37).

ORAÇÃO


No caminho espiritual, esotérico, a oração determina a passagem do homem velho para o homem novo. Contudo é preciso saber orar, não são as muitas frases ou palavras nem a repetição mecânica que garante esta passagem. Somente quando descobrimos o Deus que habita dentro de cada um, tornamo-nos capazes de orar com liberdade. A Oração passa de uma repetição inútil para uma fonte de vida eterna.
Aqui recordo as palavras de Santo Agostinho: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tu estás dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim te procurava; com o meu espírito deformado, precipitava me sobre as coisas formosas que criastes”. Somente quando permitirmo-nos procurar o Senhor dentro de cada um de nós, poderemos nos deparar com a verdadeira oração.
Fora de nós, como Agostinho apresenta, podemos encontrar os seres que o Senhor criou. Mas dentro, em nosso íntimo reside a semente do próprio Deus. Os hindus têm como cumprimento a palavra “Namastê”, que significa: “Deus que habita em mim saúda Deus que habita em você”. Este modo de cumprimentar não remete à existência de deuses diferentes, mas sim à essência divina que é comum a todos os seres.
Orar é, portanto, encontrar a essência divina que cada um de nós possuímos. Interessante é o modo utilizado por Cristo para nos demonstrar como se dá este encontro. Encontro que não acontece no burburio das palavras, nem no palavrório de muitas pessoas. A oração se dá no silêncio, na ausência das muitas coisas, na companhia da mais profunda solidão e silêncio. “Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos outros. Mas você, quando orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao Pai, que não pode ser visto. E o Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa. Nas suas orações, não fique repetindo o que você já disse. Deus não o ouvirá porque faz orações compridas. Pois, antes de você pedir, o Pai já sabe o que você precisa”.
A oração não precisa ser piedosa, lamuriosa ou toda cheira de adornos, ela deve ser simplesmente um frutífero diálogo com Deus, onde apresentamos a ele nossa vida tal como ela é. Deus não precisa de nossa oração, nem nos amará mais por orarmos, mas nós precisamos de nossa oração.
Orar é uma dádiva. Mesmo conhecendo tudo, o Pai nos dá o direito de lhe contarmos. Ele nunca nos abandona em nossos sofrimentos e necessidades. O Pai não só sabe como convive com nossas necessidades, daí que travar o diálogo com Deus nos permite perceber na Oração a fonte para o equilíbrio humano. “Quem com pureza de coração vive, adora essencialmente Deus em si mesmo.”
Namastê!

Literatura Hermética

No caminho esotérico a literatura hermética se apresenta como inspiração constante. É preciso ter contato com esta literatura para adentrar na tradição do profundo conhecimento apresentado por Hermes, o Trimegisto.
Na grande obra intitulada “A tábua da esmeralda”, Hermes apresenta a lei que rege todo o universo. Esta lei diz: “O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo. E como todas as coisas vêm e vieram do Um, assim todas as coisas são únicas por adaptação”. Daí vem o termo “universo”, onde o “uno” vai irrompendo em modos diferentes, chamados de “verso”. Na medida em que o uno vai se desdobrando vão surgindo as coisas, os versos.
Nisto percebemos que há uma só lei que rege todo o universo, esta lei é única para todos os seres, de modo que tudo que se dá lá fora, acontece aqui dentro.
Numa visão mais prática, quando nos deparamos com o sistema solar, percebemos um núcleo (Sol) que sustenta todo um sistema de corpos que giram ao redor dele (planetas). Se partirmos para uma visão microscópica, nos deparamos com o átomo, onde há um núcleo que sustenta uma série de elementos (elétrons) que giram ao redor dele. Podemos perceber a reprodução do mesmo sistema, tanto numa esfera macroscópica, quanto microscópica.
Assim, em poucas palavras bem concentradas a literatura hermética se dá. Para o hermetismo não são necessárias muitas coisas, muitos textos ou palavras, o que realmente importa é a concretez de cada elemento. Ou seja, basta uma palavra para que toda a compreensão venha à luz. Assim, num simples toque irrompe alegremente a sabedoria.
Neste modo de entender, podemos chamar a sabedoria de interpretação. Somente o sábio consegue desvendar os segredos do hermetismo, interpretando, de modo claro e conciso, cada um dos elementos que residem no obscuro das palavras e oráculos.
Os textos bíblicos são repletos de exemplos herméticos, principalmente nos escritos de João, onde o hermetismo se apresenta como circularidade. Nisto recordamos Heráclito que diz: “Tudo se reúne na circunferência do círculo”.
O Evangelho de João começa da seguinte forma: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”. Com olhos bem afinados e a percepção aguçada podemos perceber a circularidade hermética do texto. Pois uma frase diz todo o mistério da fé cristã, onde uma palavra, promessa de Deus, que estava em Deus e era o próprio Deus, num dado momento se faz carne e passa a habitar como forasteiro o nosso mundo. A simples união de poucas palavras conta toda a história da salvação do homem, a isso damos o nome de hermético.

“Non multa, sed multum”

(não muitas (coisas), mas muito (intenso)


Dando continuidade aos temas propostos, vamos lentamente adentrando no modelo esotérico de estudo, aqui chamaremos de “Studium”, pois acena para a dedicação plena para um fim, para um profundo amor. Neste modo de estudo vale recordar o provérbio latino, “non multa, sed multum”. Ou seja, não são as muitas coisas, a infinidade de saberes ou a quantidade de dados, que definem o estudo, mas a profundidade de cada uma das realidades. Uma única busca, intensa, profunda, o único necessário e essencial. O esotérico, em seu caminho, busca por uma única perfeição. O saber que se remete ao poder, ao domínio do mundo e dos entes, quer “multa”. O espírito, no que condiz ao “studium” diz o “multum”. Assim, bem assentado no que é seu, o esotérico dedica sua vida com graça e plenitude àquilo que lhe é próprio, a intensidade das pequenas coisas.
Podemos sentir na profundidade dos medievais a força propulsora deste bem fazer. De modo que, para a compreensão moderna pouco fizeram, pouco construíram, mas num entendimento de ”Studium” muito fizeram, pois foram perfeitos e nos mais insignificantes detalhes. Daí que um monge podia entregar sua vida à cópia. E ali, sobre aquele cavalete, passar toda a vida fazendo pouquíssimas cópias, desenhando milhares de iluminuras num único texto. Pois, o mais importante no trabalho é a perfeição alcançada.
Então para compreender este mundo esotérico é necessário ser iniciado nele. A iniciação acontece no âmbito do coração. Não são os dados, histórias ou rituais, que garantem este primeiro passo, visto que ele se dá no escondido, onde ninguém tem acesso. Lá, no íntimo, começamos a ouvir um burburio que se intensifica e se concretiza num novo caminho, uma nova forma de ler o mundo. A partir deste primeiro passo conseguimos construir a intensidade nas pequenas coisas. Fernando Pessoa compreendeu muito bem este processo, onde a grandeza se dá pela disposição à intensidade que se apresenta em tudo como inteireza do ser: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”.
A iniciação precisa ser acionada, isto pode acontecer a partir de fora, pela convivência com um mestre, ou a partir de dentro, por uma iniciativa própria, em decorrência do contato com o mundo. A garantia da iniciação está na disposição do discípulo. O mestre não garante a iniciação, mas pode, a partir da experiência própria, auxiliar no primeiro passo no caminho do discípulo.
No esoterismo a quantidade de informação não é importante, pois para iniciar este caminho é necessário a completa superação de nossas seguranças. Os verdadeiros artistas e os grandes poetas compreendem muito bem isto.
O conhecimento, por sua vez, garante o primeiro passo. Conhecer quer dizer “nascer com”, “nascer novamente”, “re-nascer”. Assim, para iniciar o processo é preciso re-nascer, assumir a vida numa nova ótica. Para Jesus Cristo, quem não nascer novamente não poderá ver o Reino de Deus. Este re-nascer tem a ver com uma nova leitura do mundo, pois como diz o Nazareno: “O Reino já está no meio de vós”... “e somente quem tiver ouvidos para ouvir, ouvirá”...

Conhecimentos Esotéricos

Qualquer revista ou jornal que abrimos, encontramos um espaço destinado ao horóscopo, às previsões e até à magia. Entretanto, em nossa época, todos estes elementos aparecem na superfie dos acontecimentos. Surgem como previsões mágicas ou extraordinárias, todavia o esoterismo fala da vida ordinária, do trivial, do dia-a-dia.
Às vezes, nos colocamos a discutir sobre estes elementos, porém nossa conversa se concentra na afirmação ou na negação dos mesmos. Somos tão medíocres que nos damos ao luxo de acreditar ou não, e ainda condenar os que pensam de forma diferente. Ou seja, mantemo-nos na superficialidade de nosso EGO, sem adentrarmos naquilo que o esoterismo tem de mais precioso e quer nos mostrar.
Contudo, vemos pulular inúmeros pseudo-terapeutas que tentam usar dos milenares conhecimentos esotéricos como fonte de renda. Infelizmente, estes nada entenderam e nada fazem a não ser transformar a sutileza do divino num comércio bruto e inócuo.
Na Grécia antiga irrompem dois modos de conhecimento: o “exo-térico” e o “eso-térico”. O saber exotérico tratava da sabedoria trivial, daquilo que pode ser ensinado ao grande público, das coisas que podem ser ditas e discutidas com todas as pessoas, sem necessidade de uma iniciação. Todavia, o conhecimento “esotérico” é o aplicado aos discípulos, àqueles que estavam mais próximo do mestre. Este ensinamento oferecia um certo entendimento do mundo e das coisas, de modo mais profundo e secreto. Os textos do Evangelho têm muitos exemplos de conhecimento esotérico, principalmente quando Jesus utiliza a frase: “Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.” Ou seja, ele não fala para todos, mas somente àqueles que têm os ouvidos afinados, àqueles que estão aptos para ouvir.
O esoterismo só pode ser oferecido aos que têm o ouvido atento, aos que ouvindo podem escutar, e escutando conseguem por em prática. Deste modo, muitos até têm contato com as palavras de mestre, mas por estarem na dinâmica do grande público jamais a colocarão em prática. Em Coríntios 13 podemos ver, no texto de Paulo, a dinâmica desta instrução: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o sino que retine em vão”. Sem esta disposição todo conhecimento formal, toda ciência, toda matemática, para nada serve, ao contrário somente ocupa espaço.
Segundo Paulo, existe um acionador para o conhecimento esotérico, somente quem ama tem acesso a este saber. Portanto, não basta ter ouvidos é preciso saber ouvir. Todo empenho do esoterismo está em mostrar aquilo que realmente somos, sem as aparências criadas. Em Jesus todo este saber era exposto a cada fala, em cada momento, porém somente quem tem os ouvidos afinados podem compreender o segredo de sua mensagem.
Nas próximas edições estaremos visitando diversos modos do conhecimento esotérico. Assim, poderemos entender um pouquinho mais sobre nossa existência humana na terra e sua relação com o sagrado. Porém, somente quem tiver os ouvidos afinados poderá participar desta discussão.