Nestes dias ouvimos na mídia várias vezes a palavra hipocrisia, mas não nos atinamos ao sentido real desta palavra. Se dermos uma olhadela nos termos gregos, nos depararemos com dois princípios que se unem e formam em português o que ora chamamos de hipocrisia. A primeira vista temos o termo “hipo” que significa abaixo de, em nossa língua dúzias de palavras têm este radical. Lembramos aqui a hipo-termia (temperatura abaixo do normal). O outro radical nos chama mais a atenção e é o “crisis”, que em português originou a palavra crise, mas que no grego está ligado à purificação, julgamento, acrisolamento.
O hipócrita é aquele que se coloca abaixo de qualquer julgamento. Como se ele estivesse fora daquilo que ele defende. Isto é, o hipócrita defende um sistema, mas não vive de acordo com o sistema que prega e defende. Hipocrisia é fechar os olhos para não ver, sabendo que a coisa está aí.
Quando, durante seu discurso sobre HIV/Aids, Lula falou sobre o preservativo, chamou a atenção para a hipocrisia que envolve o assunto em todos os setores que defendem os tabus da sexualidade, de modo especial a família tradicional e a Igreja.
A hipocrisia está acentada no seio de toda instituição. Pois, por questão de sobrevivência, o institucionalizado tem divergências nas aplicações de seus conceitos. De um modo mais plástico, há uma distância abissal entre a teoria e a prática, entre a proposta e a vida, entre o ideal e o real. Ou seja, somos hipócritas na medida em que dizemos uma coisa e fazemos outra.
Neste grande contexto, os não hipócritas se congregam em dois grupos, ou são a classe não-existente que é capaz de nunca se entregar a seus instintos mais básicos, ou, um grupo real, que não se deixa guiar ou não quer viver regido pelos valores de moral ou da virtude. Então, não hipócritas se dividem em dois grupos, um grupo inexistente e outro considerado “baixo”, mas que aqui consideramos autêntico.
A classe mais nobre da sociedade é constituída por hipócritas, pois é a classe que mantém hipocritamente a ordem e faz com que a sociedade tenha uma direção, mesmo que falsa, "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. O homem sociável é por natureza um ser hipócrita. O homem não hipócrita está relegado à exclusão ou à morte social, por destoar do modelo pré-padronizado que mantém a ordem social. Ser hipócrita é, de certo modo, se manter bem onde se está, garantindo a estabilidade conveniente à existência no mundo. A não hipocrisia consiste em se libertar dos elementos de moral que dominam a vida cotidiana, portanto se colocar num mundo paralelo, criando uma outra realidade, regida por leis diferentes as adequadas àquele padrão.